correio parar de anúncios eróticos

"ERA preciso coragem o escritor Rui Zink, que em 2002 viria a lançar um livro que juntava os melhores desenhos e cartoons de José Vilhena, lembra que o autor, editor, proprietário e distribuidor da Gaiola Aberta foi sempre um caso muito peculiar: "Fazer aquele tipo.
Para fazer o que ele fazia era preciso coragem.".
Habituado a lutar pela liberdade de expressão quando isso podia custar a liberdade física, Vilhena não poupava os arrivistas que o 25 de Abril fez democratas de um dia para o outro.Como o regime achava que ninguém lia livros, estes podiam ser publicados sem exame prévio conta Rui Zink."Ele começa pelos livros porque a imprensa era obrigatoriamente submetida a censura prévia.Os livros tinham muito sucesso.".Uma revista que, estranhamente, abria com duas páginas de anúncios classificados.Vestidos ou nem por isso, em poses ridículas ou obscenas, Vilhena fez da sátira política, misturada com desenhos eróticos e muito anticlericalismo, a receita para o sucesso de vendas.Salazar, Hitler procuro parceiro de dança salsa madrid e Mussolini conversavam no inferno na Gaiola Aberta número um, Marcelo Caetano estava à sanita na capa do segundo número.
E só a doença, que aos 86 anos o deixa alheado da realidade num lar de Lisboa, o fez parar de publicar.
Fazia a mala e ia para um motel na marginal de Cascais, com vista para o mar e tudo, do qual saía ao fim de uma semana, pois a partir daí já não havia problemas em regressar a casa." Ainda assim, Vilhena foi preso.
Foi preso pela pide.Vida Lisboeta, O Fala Barato, O Cavaco ou O Moralista continuaram a sátira pelos anos fora.Retratou-o vestido de peixeira, com as calças em baixo, de rabo ao léu.Era uma espécie Capitão da Indústria do humor em Portugal porque era ele que fazia, editava e distribuía as revistas lembra Rui Zink.Passados uns dias, apareceu um senhor para recolher os desenhos.".Um dia recebemos no escritório uma chamada do Conselho de Ministros.Mas em breve José Vilhena escolheria como alvos Mário Soares, Sá Carneiro, Álvaro Cunhal ou António de Spínola.

E José Vilhena já tinha 70 livros publicados quando aconteceu a revolução.


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